quinta-feira, 18 de agosto de 2011

África Emergente

Está para completar 27 anos que saí de São Paulo e vim para Goiás trabalhar. Na ocasião, para chegar ao meu local de trabalho, na longínqua São Domingos, divisa de Goiás com a Bahia, tive que rodar quase 500 Km em estrada de terra. O asfalto terminava logo após Brasília e nesse trajeto pela região mais pobre de Goiás, passamos por terras improdutivas, áridas além de povoados miseráveis. Meu heróico chevetinho 82 não resistiu e capitulou 20 Km antes de chegar ao destino.
Estou falando isso porque outro dia, um colega que partilhou comigo alguns desses momentos perguntou-me o que eu esperava da África. Respondi que esperava encontrar uma situação melhor que a que encontramos naquela época. Pelo menos, no meu roteiro de viagem, salvo engano, só rodarei no asfalto.
Coincidentemente vejo que hoje meu amigo tem os mesmos temores que tiveram quando me mudei para cá. Da mesma forma que há 27 anos atrás, amigos e parentes imaginavam que estava me mudando para um lugar inóspito e sem recursos, hoje vejo o mesmo tipo de sentimento. A pergunta que mais tenho ouvido é se vou fazer um safári, refletindo um pensamento que a única coisa interessante para ver no continente africano são os bichos. Tanto em relação a Goiás naquela época, como em relação à África nos dias atuais, existe muita desinformação.
Claro que existem Áfricas e Áfricas umas mais pobres, outras menos, umas ainda em guerra ou em ditaduras que produzem o mesmo efeito, e outras que pelo caminho da democracia conseguem significativos avanços. Nosso roteiro segue o oeste da África onde estão os países mais desenvolvidos, com estrutura de transportes melhor, herança, na maior parte deles da colonização inglesa. É lamentável ter que reconhecer, mas entre os colonizadores existem uns melhores que os outros e, nesse quesito, os ingleses foram os melhores. Vamos andar muito de trem e, por quase todos os países que vamos passar, a malha ferroviária, é significativamente maior que a do Brasil (guardando as devidas proporções, é claro).
Está surgindo na África uma classe de países emergentes com alto nível de crescimento de suas economias. Moçambique, que foi colônia portuguesa até 1975, passou por um período de governo socialista e esteve em guerra civil até 1992, é um dos países que mais cresce mundo. Sua taxa média do crescimento econômico nos últimos cinco anos foi de 7,8%. Nos últimos 12 anos, sua economia praticamente dobrou de tamanho. Zâmbia, Tanzânia, Uganda, Etiópia e até o nosso simpático Sudão, só para citar países por onde passaremos, seguem no mesmo diapasão.
As razões do surgimento desses países emergentes são várias, mas duas para mim são principais: o surgimento de democracias com governos responsáveis socialmente e a inserção desses países na comunidade internacional atraindo investimentos. China, Índia e até o Brasil (veja reportagem no final dessa postagem) tem investido em larga escala nos países mais promissores da África.
A miséria africana foi introduzida pelo sistema colonial, já que a África era um continente auto-suficiente em alimentos sustentado pela agricultura familiar (os escravos trazidos da África ensinaram aos portugueses técnicas de agricultura já que os solos e o clima africano eram semelhantes ao do Brasil, ao contrário do da Europa dos colonizadores). Ao serem expulsos esses colonizadores tentaram perpetuar seu domínio através de elites corruptas que produziram guerras e mais miséria.
Essa situação está mudando. O mundo hoje olha para a África não mais como um continente sem futuro, para se fazer caridade, mas como um lugar para investir. Esses investimentos aumentam a renda, criam demandas por mais educação e serviços do Estado e dificultam a corrupção da elite dominante. A população urbana cresce num fenômeno de êxodo rural semelhante ao que ocorreu (e ainda ocorre) no Brasil. Em nossa viagem, vamos passar por grandes cidades, algumas com mais de cinco milhões de habitantes. Caóticas, pulsantes, vivas...   

PS - O Financial Times publicou uma pequena matéria sobre o avanço dos investimentos brasileiros na África que vale a pena ler:
http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2011/04/26/brasil-busca-triunfo-em-nova-grande-disputa-pela-africa-diz-ft.jhtm

4 comentários:

  1. Belo texto, Gérson, parabéns !! Você tem toda razão : o nível de informação que a gente tem sobe a África é baixíssimo - safaris, parques naturais, AIDS, guerras, misérias e meia dúzia de cartões postais.
    É ótimo que você vá pra lá e nos conte o que está vendo "in loco" (quer dizer, ótimo, mesmo, era eu mesmo ir, mas já que no momento não dá ...)

    Abraços

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  2. Nivaldo. Parece que todos que vão à Africa acabam retornando. Se isso acontecer comigo, você já está convidado. De repente, qualquer hora dessas vamos tomar um vinho no Sudão...

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  3. Mor, postagem super necessária! Sua viagem mudará conceitos, torço pra um dia também não precisar explicar tanto "O que tem na África?"...

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